quarta-feira, 15 de abril de 2009

O gosto travestido em valor
Cedo ou tarde
Há de ter, na boca, um gosto amargo
Mais amargo que uma segunda feira
depois de um domingo que azedou
O valor é
só se for
O gosto é
por si só
Um o que seria bom
Outro o que vicia
Não seria então a farsa uma tragédia
e tampouco a tragédia uma farsa

domingo, 12 de abril de 2009

De todos os prazeres
O prazer mais raro
é o prazer de servir
raro que é, salta os olhos.
alguns chamam estranhamento
aguns preferem inveja
E a luxúria de servir
causa extase máximo
e a alma deixa a carne livre para ser só carne
não se sabe se a alma realmente se retirou
ou se escondeu-se para observar
num ato voyerista e deleitoso
a carne ali solitária
e sincera protagonista
como se fossse um teatro doentio.
Talvez se algo passar dos limites ela intervenha
se estiver lá...
é, se estiver...
e mãos se enchem de corpos e almas
Eos olhos da rua viram.
ele fisgou o anzol
alguns preferem lutar
outros se agradam com a ideia de sair da água
e sufocar lá fora
devem supor que o nada seja mais longe um pouco
ou então são como tabagistas que tem certeza que vão morrer e continuam fumando
Lembrete importante:
Quando for necessário
Se imponha
Quando não for mais necessário se impor
viva
Furor pela manhã
Alma convulsa, atordoada
corre no vazio a esmo
desejo incontido de conter o fluxo
que dançantemente se contorce, e mina exuberante
sem aviso e sem porquê
flui
risomáticamente flui
flui
dementemente
flui
de lugar nenhum para lugar qualquer
E como o sol, se lança em abundância sobre a terra
sobre os transeuntes
que tem que caminhar
e cruzar a nado até a outra margem
gostem de água ou não
pois é líquido o terreno
E quem quer avançar que se molhe
e quem quer prosseguir que se queime
O sol é impiedosamente alheio
aprender a gostar ou viver a contra gosto
para fazer o gol é necessário driblar
com beleza, ou eficiência
não importa
não há remédio, há zagueiros
Há de se conter o fluxo
e o romantismo vulgar do gênio martirizado pela própria genealidade
será uma aposta muito cara
para martirizados só há dignidade na história, o céu burguês
só se vive em primeira pessoa
estão mortos os personagens
Há de se domar o fluxo
Há de se nadar
se contra ou a favor
não sei
Mas há de se nadar
para não ser tragado
Aventurar-se nessa densa imersão
Avançar nessa rasa surperfície

sexta-feira, 20 de março de 2009

Compenetrada se curva
a imaginação
Grava a sangue na tela
o esboço da vida
arrisca os primeiros traços
da sonhada obra-prima
Mas o tempo a visita
todos os dias
Aos poucos revela
não há ensaio para a vida
nem moldura ou platéia
É só esse rascunho
À procura do para que nasceu
para ter nascido valer a pena
Cria rugas o pensamento
E os fios da alma
tramam os nós de carne
da tensa corda
nos ata
porto seguro, rotina
E contra a luz se lavanta
e se projeta sombra
Silhueta da vida
Antes do acima de tudo
que venha o acima de mais nada
E a vontade de verdade fica para trás
vai rolando e mergulha na poeira da estrada
Ou render-se a vida
Ou a chantagem da história
Nada tem de pequenas
as coisas fundamentais
Pequeno é o espaço
reservado a elas
O fundamental é imenso
Mesmo que a cegueira seja maior